Cada um sabe a dor…

Em tempos de Facebook, Twitter e afins, os tribunais parecem quase obsoletos – e a profissão de juiz muito mainstream. – Mas por quê? Baixaram o salário? Informatizaram totalmente o setor? Videoaudiências? Comassim???

– Não, não é bem assim. É que hoje todo mundo pode ser juiz. Sem nem precisar de diploma, olha que graça! Mas o mais estranho desse novo sistema é que, na maioria das vezes, o juiz também senta no banco dos réus.

São muitos juízes para muitos réus, e nesse quesito a “justiça” funciona que é uma beleza. A sentença ocorre em tempo real, poucos minutos após um “deslize” do acusado. O engraçado é que, na maioria massacrante dos casos, o réu nem fica sabendo de sua acusação!

E por causa de uma foto no espelho da academia, uma frase de Nietzsche, Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector, um vídeo de humor compartilhado, uma frase “reaça” contra o governo, um apelo feminista, um protesto contra a homofobia, um “bom dia faces”, um versículo da Bíblia, a curtida na foto da ex, ou o bom e velho português “bem dizido” já são razões suficientes para que o(s) juiz(es) declare(m) aberta a audiência (ou o massacre).

Afinal, todos temos bom senso, não é verdade? Quem há de dizer o contrário de si mesmo? Quem há de atirar a moeda para o alto a fim de ver a outra face? – Ao menos no futebol, isso é tarefa do ((juiz))! Então, se é assim, o problema, claramente, não é a falta de juízes – é a falta de qualificação dos tais.

Pensando nisso, lembrei-me de alguns exemplos em que situações de um julgamento “sensato” foram ilustradas na música e no cinema/literatura. [Sei que em tempos de roteiros hollywoodianos, é meio arriscado transformar o bandido em mocinho, mas vamos atirar a moeda, ok?].

O primeiro exemplo tiro do filme brasileiro de que mais gosto. Quem não se lembra do juízo final em “O Auto da Compadecida”? Vamos avançar na história para a cena em que o Diabo se assegura em levar para o inferno o temível cangaceiro Severino. Justo, né? Afinal, um cara que rouba, mata sem dó nem piedade, só pode merecer o fogo eterno! É então que a “compadecida”, Nossa Senhora, roga pela alma de Severino. Pelo amor de Deus, né? É um absurdo! Como uma pessoa tão má pode ser absolvida? Então a Padroeira conta suas razões – a infância pobre, o assassinato de seus pais quando ainda era um menino, a fome, a sede; revoltas de sua vida que o levaram a se tornar o que era. – Após a análise dos fatos, Severino alcançou a salvação. E seguiu contente seu caminho rumo ao “Paraíso”.

O segundo exemplo é uma música que Elvis (!) cantava, chamada “In the Ghetto”. A letra conta a trajetória de (mais) um garoto nascido no subúrbio pobre de Chicago. Devido aos maus tratos que a vida apresenta, a fome e a falta de oportunidades, o garoto se mete em brigas e começa a roubar, como forma de sobrevivência. E isso ocorre até a ocasião de sua morte, quando outro garoto nasce sob suas mesmas condições – dando início a um novo ciclo. Mas tem uma parte dessa música que mais me chama atenção, que diz mais ou menos assim: Gente, vocês não entendem/ a criança precisa de ajuda/ Do contrário, se tornará um jovem revoltado algum dia/ Olhe para você e para mim/ Somos tão cegos que não podemos enxergar? / Por que simplesmente não voltamos nossas cabeças para enxergar o outro lado? 

E eu finalizo completando o título desse texto, com um verso da canção de Caetano, “Dom de Iludir”: Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. – É ou não é? Somos todos seres humanos, com nossas qualidades e falhas. Não se pode julgar um livro pela capa, já diria nossa tataravó. É preciso ler, página por página, do sumário ao posfácio, para que pelo menos seja garantido o direito de opinar.

Não protesto em defesa de todos os criminosos do mundo, não é isso, apenas acredito que podemos sempre tirar algo bom de alguém – ou uma razão plausível para suas atitudes. Ninguém é 100% mau ou 100% bom. Ninguém é 100% culto ou 100% ignorante. Somos 100% humanos, disso eu tenho certeza. E se tem um julgamento que sempre funciona é a tal da autoavaliação. Se queremos ser bons juízes, comecemos por ser o de nós mesmos.

E deixe o povo das redes sociais ser feliz! 😉

Caso encerrado!

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